Item indispensável na mesa da maioria dos brasileiros, o feijão carioca celebra, em 2026, seis décadas desde o início de seu desenvolvimento científico, marco que simboliza uma das mais importantes contribuições da pesquisa agropecuária nacional para a segurança alimentar do país. Responsável por cerca de 60% do consumo de feijão no Brasil, o grão tornou-se referência tanto pela produtividade quanto pela qualidade culinária, consolidando-se como base da dieta cotidiana de milhões de famílias.
A trajetória do feijão carioca começou na década de 1960, no município de Ibirarema, no interior de São Paulo, quando uma observação de campo deu origem a um processo de inovação agrícola que atravessaria gerações. Em uma lavoura de feijão do tipo chumbinho, variedade tradicional cultivada à época, o engenheiro agrônomo Waldimir Coronado Antunes identificou plantas com características incomuns: grãos rajados, com manchas marrons e pretas sobre fundo claro, visualmente distintos dos demais. A percepção de que se tratava de uma possível mutação genética natural levou o agrônomo a separar aquele material e iniciar um processo de seleção.
Os resultados chamaram rapidamente a atenção. As plantas apresentavam maior vigor, produtividade elevada e menor suscetibilidade a doenças, além de características culinárias valorizadas pelos consumidores, como cozimento mais rápido, caldo consistente e sabor marcante. A combinação desses fatores indicava o potencial da nova variedade para ampliar a eficiência da produção agrícola e melhorar a qualidade do alimento disponível no mercado.
O avanço decisivo ocorreu quando as sementes selecionadas foram encaminhadas ao Instituto Agronômico (IAC), em Campinas, onde passaram a integrar o acervo científico da instituição e deram início a estudos agronômicos mais aprofundados. Pesquisadores dedicaram-se à avaliação do desempenho do material, conduzindo experimentos que permitiram consolidar a base técnica necessária para o lançamento oficial da nova cultivar.
Com a formalização do processo científico e a validação das características produtivas, o feijão foi oficialmente lançado alguns anos depois, recebendo o nome “carioca”, denominação que, ao longo do tempo, gerou confusões sobre sua origem. Diferentemente do que muitos imaginam, o nome não possui relação com a cidade ou o estado do Rio de Janeiro. A escolha surgiu de uma referência popular feita durante o período inicial de cultivo, quando um trabalhador rural comparou o padrão rajado dos grãos à pelagem de porcos crioulos conhecidos regionalmente como “cariocas”, termo utilizado para descrever animais manchados.
Desde então, a variedade ganhou rápida aceitação entre produtores e consumidores, expandindo-se por diferentes regiões do país e tornando-se predominante na produção nacional. O sucesso do feijão carioca também evidencia o papel estratégico da pesquisa pública agrícola no desenvolvimento de soluções capazes de impactar diretamente o cotidiano da população, ampliando produtividade, reduzindo perdas e garantindo alimentos de qualidade.
Sessenta anos após o início de sua trajetória científica, o feijão carioca permanece como símbolo de inovação aplicada ao campo e de como a observação atenta aliada ao investimento em ciência pode transformar uma descoberta isolada em um dos alimentos mais consumidos do país, consolidando um legado que continua presente diariamente na alimentação dos brasileiros.