Por Max K. Neumann
Durante décadas, o Paraguai foi visto por muitos brasileiros apenas como um destino de compras. Essa percepção, entretanto, já não corresponde à realidade.
Nos últimos anos, o país consolidou uma transformação silenciosa, tornando-se um dos ambientes mais competitivos da América do Sul para instalação de empresas, preservação patrimonial e expansão internacional de negócios. O resultado é um movimento crescente de empresários, investidores e famílias brasileiras que passaram a olhar o Paraguai não apenas como um vizinho geográfico, mas como uma plataforma estratégica de desenvolvimento.
Tive a oportunidade de conhecer essa realidade de perto durante uma missão empresarial realizada em Assunção há cerca de dois anos. Na ocasião, percorremos diversos segmentos da economia paraguaia, mantendo contato com empresários, autoridades e representantes do setor produtivo. A experiência permitiu observar uma característica que dificilmente é percebida por quem conhece o país apenas superficialmente: existe um claro esforço nacional voltado à atração de investimentos privados.

Naturalmente, o principal fator de interesse continua sendo a competitividade tributária.
O chamado sistema “10-10-10” tornou-se uma referência regional, estabelecendo alíquotas de 10% para o Imposto de Renda, 10% para o IVA e 10% sobre a distribuição de dividendos em determinadas situações previstas na legislação. Trata-se de um modelo significativamente mais simples do que aquele encontrado em diversos países da região, reduzindo custos de conformidade e proporcionando maior previsibilidade ao ambiente empresarial.
Outro importante instrumento é a Lei da Maquila, que permite que empresas produzam no Paraguai para exportação mediante um regime especial de tributação, favorecendo operações industriais voltadas ao mercado internacional. Para muitos setores, especialmente indústria, autopeças, têxtil, tecnologia e manufatura, trata-se de um mecanismo capaz de elevar significativamente a competitividade.
Mas limitar a análise aos incentivos fiscais seria um erro.
O Paraguai apresenta indicadores macroeconômicos que merecem atenção. Nos últimos anos, manteve inflação relativamente controlada em comparação com diversos países da região, baixo nível de endividamento público, crescimento econômico consistente em diferentes ciclos e uma matriz energética extremamente competitiva, baseada principalmente na geração hidrelétrica.
Esse conjunto de fatores reduz riscos para quem pretende produzir, investir ou simplesmente diversificar ativos.
Outro aspecto frequentemente mencionado por empresários é a postura pró-mercado adotada por sucessivos governos paraguaios. Independentemente das preferências ideológicas de cada observador, percebe-se uma política econômica que privilegia a iniciativa privada, busca estabilidade regulatória e procura atrair capital estrangeiro como instrumento de desenvolvimento nacional.
Não por acaso, milhares de brasileiros já vivem no Paraguai, especialmente em regiões próximas à fronteira, mas também em Assunção e em importantes polos econômicos do país. Muitos transferiram empresas, abriram filiais, constituíram holdings ou passaram a desenvolver parte de suas operações em território paraguaio.
Da mesma forma que tenho defendido em meus artigos sobre internacionalização, acredito que empresas modernas não devem concentrar todos os seus ativos, operações e riscos em uma única jurisdição.
Internacionalizar deixou de ser uma estratégia exclusiva das grandes multinacionais. Hoje, empresários de médio porte, investidores e famílias empresárias também podem estruturar operações internacionais de forma totalmente legal, transparente e alinhada às legislações dos países envolvidos.
Isso não significa abandonar o Brasil.

Significa ampliar horizontes.
Diversificar jurisdições, reduzir riscos regulatórios, buscar eficiência operacional e criar alternativas para as futuras gerações tornou-se parte da gestão patrimonial moderna.
O Paraguai não representa uma solução universal, tampouco substitui uma análise jurídica, tributária e estratégica individualizada. Cada estrutura empresarial exige planejamento próprio e absoluto respeito às legislações aplicáveis.
Entretanto, ignorar o que está acontecendo do outro lado da fronteira talvez seja um erro estratégico.
Enquanto muitos ainda enxergam apenas um país de compras, outros já descobriram um ambiente que reúne estabilidade, competitividade e oportunidades concretas para construir negócios de alcance internacional.
Em um mundo cada vez mais globalizado, talvez a maior vantagem competitiva não esteja apenas em produzir melhor, mas em saber escolher onde produzir, investir e preservar o patrimônio.